21.7.09

Rejane



“Noiva à beira de um ataque de nervos”

"Em uma dessas voltas pra casa de ônibus, naqueles vinte intermináveis minutos de fome, compartilhei o acento com uma colega e amiga desde os primórdios de minha experiência como estudante de Artes, a Bárbara. Além do acento compartilhei, também, uma novidade: estava noiva!
Estava noiva em um semestre que estaria estagiando em duas escolas, na escolinha de artes, tendo aulas da graduação, aulas da pós-graduação e trabalhando em uma loja da cidade. Além disso, deveria organizar o casamento, fazer lista de convidados, fazer orçamentos e administrar finanças e emoções. Tudo o que não estava conseguindo era organizar todas as coisas que deveria fazer.
Nestes vinte minutos compartilhei de planos e anseios que me corroíam, da sensação de impotência que tinha em relação a todos estes projetos. Do medo de idealizar e não realizar.
Os vinte minutos passaram, os dias passaram, as semanas passaram e tive de continuar organizando o casamento, a faculdade, os estágios, a pós e o trabalho. Mesmo a ansiedade tomando conta, uma estranha e agradável sensação de alegria por estar prestes a casar com o homem que amo fazia com que meus dias se tornassem mais coloridos.
Em um dia de aula, no meio de relatos dos estágios de colegas, ao fazer um comentário com esta amiga e colega, recebi o convite para ser modelo para seu trabalho de graduação. Como eu seria modelo?
Lembrei que a pesquisa que ela estava realizando era sobre maquiagens, ela disse que eu deveria escolher a roupa com que mais me identificasse e depois disso, ela realizaria a pintura no rosto. Como eu seria modelo? Com qual roupa eu me identifico?
Neste período não tenho muito pensado em roupas, tendências, moda, tão pouco estou ligada em liquidações e promoções em lojas de vestuário. O tempo que me permito pensar nestes assuntos, se resume em promoções de eletrodomésticos e a tendência na moda de vestido de noivas, aliado, obviamente, à liquidações e promoções! Eureca, vestido de noiva!
O que mais poderia me identificar neste momento da minha vida? Uma noiva, sim! Uma noiva à beira de um ataque de nervos, que está imersa em sensações conflitantes e extremamente prazerosas. Uma noiva vivendo com plenitude cada momento dos preparativos para o casório.
Ao chegar o dia da maquiagem, me vesti com um vestido branco, sandálias brancas e escolhi como adorno pérolas. O grande dia havia chegado! A maquiagem foi se definindo aos poucos e com o passar do tempo a curiosidade sobre o resultado crescia. A Bárbara mexia nas sombras, em delineadores, em miçangas e a pintura foi tomando forma. Depois da maquiagem, o penteado e depois do penteado, o espelho. Mal podia acreditar que eu estava personificada em mim mesma! Soa estranho, mas foi exatamente assim que percebi o meu reflexo no espelho. Aquela noiva não era um personagem, nem tão pouco algo que gostaria de ser, mas era eu. Uma noiva à beira de um ataque de nervos.
Ao terminar a produção, deveríamos iniciar a sessão de fotografias, ela havia escolhido a ponte próxima à gare da estação, que faz ligação entre o centro e o bairro Itararé. Estava tão absorta no prazer gerado por eu ter me tornado suporte e trabalho artístico, que acabei esquecendo que encararia transeuntes curiosos nas ruas. Nos primeiros passos na calçada em frente ao prédio da Bárbara, fui tomada por um constrangimento em me expor daquela maneira publicamente.
Foi na Praça Eduardo Trevisan a primeira fotografia, estava rígida e sem saber como me portar perante a máquina. Não sei ser modelo! Para onde olhar? Posso sorrir? Fazer caretas? Como me portar? Estas dúvidas vieram em meu pensamento. Decidi que meu personagem, agora real, falaria por si. A partir deste momento, nem a máquina, nem o olhar das pessoas nas ruas, nem meus pensamentos me coibiram da naturalidade de ser uma noiva. A ponte foi um cenário que proporcionou a idéia de passagem que o casamento proporciona. Mas ainda não era o suficiente, não sintetizaria o conceito de bodas. Sugeri, então, a Catedral, situada à Avenida Rio Branco.
Eu de vestido branco, véu e bouquet em frente da igreja fui tomada por uma emoção ímpar. As fotografias e a maquiagem fizeram pleno sentido, a meu ver, naquele cenário. As sensações paradoxais voltaram tomar conta, em um misto de realização, alegria e ansiedade, me fazendo perceber que as poses e as fotos fluíram melhor naquele momento.
Aos poucos um pequeno público se formou em frente à igreja, contemplando e tecendo críticas daquele trabalho. Foi interessante analisar esta interação da comunidade, pois mesmo este trabalho não sendo em linguagem artística consagrada possibilitou uma experiência estética e sensível a este público.
Esta vivência com este trabalho foi algo único. Mexeu em mim de forma emocional, racional, afetiva, psicológica e artística. Permitiu-me conhecer melhor algumas emoções e sensações da minha intimidade e pude visualizar o que antes era uma idéia abstrata. Foi uma grata experiência com resultados plásticos significativos e surpreendentes."

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